Rosane Maria dos Santos Brandão
Pelotas · RS — audiência pública da CPI da Pandemia com vítimas diretas e indiretas da covid-19, 18 de outubro de 2021
Perdeu o marido, João Alberto dos Santos Pedroso, o Bola, em 26 de abril de 2021, cinco dias depois dos primeiros sintomas. Companheiros por 21 anos. O último dia em que o viu foi o da internação.
“Tem várias maneiras de o Estado matar o seu povo, e a falta de política pública é uma dessas. A vacina não chegou para o Bola e não chegou para milhares de vítimas.”
Rosane Maria dos Santos Brandão fala à comissão, identificada pela emissora como vítima da pandemia, com a legenda “O marido de Rosane Brandão, João Alberto, da Universidade Federal de Pelotas, foi vitimado pela covid-19”.
trecho montado a partir do arquivo público · página de origem
Trecho da fala de Rosane Maria dos Santos Brandão à CPI da Pandemia, transcrito das notas taquigráficas da sessão.
Boa tarde! Eu sou Rosane Maria dos Santos Brandão, sou do Estado do Rio Grande do Sul, cidade de Pelotas. Meu esposo, João Alberto dos Santos Pedroso, conhecido como Bola, foi mais uma vítima da covid. Eu costumo dizer que ele foi assassinado. Os primeiros sintomas, o Bola teve no dia 11 de abril; foi hospitalizado no dia 16, e esse foi o último dia em que eu vi o meu companheiro de 21 anos de vida juntos. Ele morreu no dia 26 de abril. Bola era de Santiago, uma cidade do Rio Grande do Sul também, um sujeito simpático, sorridente e alegre, com muitos amigos, muito amado por todos. Era servidor, técnico-administrativo da Universidade Federal de Pelotas, e deixa saudades. Eu não vou precisar dizer para vocês aqui que ouviram todos os depoimentos que me antecederam o quanto muda a vida da gente, o quanto a gente sofre, enfim… Eu acho que você já conseguiram entender isso com os sobreviventes que estão aqui à volta. O Bola teve a vida abreviada por uma política genocida. Nós esperamos por uma vacina que chegou tardiamente e a conta-gotas para toda a população. Senhores, tem várias maneiras de o Estado matar o seu povo, e a falta de política pública é uma dessas. A vacina não chegou para o Bola e não chegou para milhares de vítimas. Saúde pública depende de decisões políticas e de ações políticas. Vocês escutaram aqui as vozes de mais de 600 mil mortos, e 490 mortes eram evitáveis, não fosse essa política de extermínio do povo brasileiro. Nós não estamos nos lamentando, não estamos indignados com o ciclo natural da vida. Nós sabemos que as pessoas nascem e nós sabemos que as pessoas morrem, mas nós estamos falando daqueles que deveriam estar entre nós neste momento não fossem as escolhas deste Governo. Se manifestam aqui, através de nós, esposas, esposos, todas as vozes; se manifestam as pessoas que perderam os seus amores, vítimas do negacionismo, da incompetência, da ignorância, da maldade das fake news, que levaram o nosso País ao caos.
A Associação Vida e Justiça, que ela representava na audiência, entregou ao Senado um documento com denúncias e propostas, entre elas a criação de uma comissão nacional com participação de civis, nos moldes da Comissão da Verdade.
fontes
- CPI da Pandemia18 de outubro de 2021
Notas taquigráficas da 65ª reunião da CPI da Pandemia — audiência pública para oitiva de vítimas diretas e indiretas da covid-19 · Senado Federal