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As três propostas de agosto, e os sete meses de silêncio

Em 14, 18 e 26 de agosto de 2020 a Pfizer apresenta três propostas vinculantes de venda de vacina ao governo brasileiro, cada uma em duas opções — 30 ou 70 milhões de doses —, a US$ 10 a dose, com entrega começando ainda em 2020. A última dava prazo de quinze dias e não foi aceita nem recusada. O contrato seria assinado sete meses depois, com menos doses para o primeiro semestre de 2021 do que a oferta de agosto previa.

“Como era vinculante e estávamos neste processo com todos os governos, teria uma validade de 15 dias. Passados esses 15 dias, o Governo do Brasil não rejeitou, mas tampouco aceitou a oferta.”

Carlos Murillo, gerente-geral da Pfizer para a América Latina · notas taquigráficas da CPI da Pandemia, 13 de maio de 2021
vídeoTV Senado — arquivo do Senado Federal13 de maio de 2021a partir de 11:192min 54s

O momento do depoimento em que o gerente-geral da Pfizer para a América Latina responde sobre a falta de resposta do governo brasileiro. A própria emissora legendou a cena: “Não tivemos resposta positiva nem negativa do governo brasileiro”, afirma gerente da Pfizer. Foi assim que o trecho foi localizado — lendo o letreiro do arquivo da TV Senado, segmento a segmento.

trecho montado a partir do arquivo público · página de origem

Este é o evento central da linha do tempo, e o mais bem documentado. A CPI da Pandemia reconstituiu a cronologia a partir dos e-mails sigilosos entregues pela empresa e do depoimento de seu representante.

As propostas

  • 14 de agosto de 2020 — proposta vinculante em duas versões, de mesmo preço e condições: 30 milhões de doses ou 70 milhões. Prazo de quinze dias para aceite.
  • 18 de agosto — a empresa antecipa 1 milhão de doses adicionais para 2020, passando de 500 mil para 1,5 milhão, condicionadas à aprovação regulatória que então se previa para outubro.
  • 21 de agosto — a Pfizer cobra resposta à proposta.
  • 24 de agosto — contato telefônico entre o assessor do ministro da Saúde e o representante da empresa.
  • 26 de agosto — a terceira e mais vantajosa proposta. Na opção de 70 milhões de doses: 1,5 milhão ainda em 2020, 3 milhões no primeiro trimestre de 2021, 14 milhões no segundo, 26,5 milhões no terceiro e 25 milhões no quarto. Dezoito milhões e meio de doses até junho de 2021.
  • 12 de setembro, com reenvio em 15 de setembro — carta de Albert Bourla, presidente mundial da Pfizer, dirigida ao presidente da República, ao Ministério da Saúde e a outras autoridades. Perguntado na CPI se algum destinatário respondera, o representante da empresa disse que não houve resposta — “nem negativa”, observou o relator.

O silêncio, e o que veio depois

  • 26 e 28 de outubro de 2020 — as tratativas recomeçam, com reunião com o secretário-executivo do Ministério.
  • 9 de novembro — a Pfizer informa eficácia de 90% na primeira análise da fase 3 e pede, com urgência, o número de doses de interesse do governo.
  • 11 de novembro — e-mail registra reunião com o presidente da República e o ministro da Saúde.
  • 24 de novembro — o secretário-executivo do Ministério confirma que o governo já recebera três ofertas.
  • 11 de dezembro — a vacina é aprovada pela agência regulatória americana.
  • 10 de março de 2021 — é promulgada a Lei nº 14.123, que a Pfizer apontou como a segurança jurídica que faltava.
  • 19 de março de 2021 — assinatura do contrato, por 100 milhões de doses.

O cálculo que a CPI fez

O preço nunca foi o obstáculo: US$ 10 por dose desde a primeira proposta, valor que, segundo a empresa, não chegou a ser discutido. O segundo contrato, firmado depois, saiu a US$ 12. As cláusulas contratuais também não mudaram substancialmente entre a proposta de 2020 e o contrato de 2021 — mudou a quantidade.

A diferença de doses disponíveis até o segundo trimestre de 2021 entre o contrato assinado (14 milhões) e a proposta de 26 de agosto de 2020 (18,5 milhões) foi de 4,5 milhões de doses. E a Pfizer pretendia entregar as primeiras ainda em dezembro de 2020.

O relatório é direto sobre o ponto em que o governo demorou: o parecer da Advocacia-Geral da União sobre as cláusulas do contrato só foi pedido em março de 2021, provocado pela Casa Civil, embora a primeira proposta fosse de agosto de 2020. “É incompreensível por que somente no mês de novembro o governo tenha questionado as referidas cláusulas e apenas em março de 2021 pedido parecer à AGU e CGU.”

A defesa do Ministério, apresentada à comissão, é que parte das correspondências eram repetidas, que a caixa de mensagens ficou inoperante entre 5 e 12 de novembro de 2020 por um ataque à rede, e que o memorando de entendimento impedia a contratação antes da aprovação americana. Está arquivada e consta das fontes abaixo.

fontes

  1. CPI da Pandemia13 de maio de 2021

    Notas taquigráficas da 9ª reunião da CPI da Pandemia — oitiva de Carlos Murillo · Senado Federal

  2. CPI da Pandemia26 de outubro de 2021

    Relatório final da CPI da Pandemia — capítulo 6.6.3.1, Pfizer: cronologia dos contatos e análise do atraso · Senado Federal

    “É incompreensível por que somente no mês de novembro o governo tenha questionado as referidas cláusulas e apenas em março de 2021 pedido parecer à AGU e CGU.”

  3. CPI da Pandemia13 de julho de 2021

    Ofício nº 4555/2021/ASPAR/GM/MS — informações sobre o atraso de resposta às ofertas de vacinas · Ministério da Saúde, documento recebido pela CPI da Pandemia em 13 de julho de 2021

  4. vídeo ou áudio13 de maio de 2021

    Vídeo da sessão de 13 de maio de 2021 na página da reunião · Senado Federal