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Márcio Antônio do Nascimento Silva

Rio de Janeiro · RJ — audiência pública da CPI da Pandemia com vítimas diretas e indiretas da covid-19, 18 de outubro de 2021

Pai de Hugo, 25 anos, morto pela covid-19. Convalescente da própria infecção, foi à praia de Copacabana e recolocou, sozinho, as cruzes que manifestantes derrubavam num ato em homenagem às cem mil vítimas. A cena virou uma das imagens da pandemia no Brasil.

“O que eu quero falar é mais de amor, humanidade. Indignação, mas principalmente de amor, porque aquele meu ato, aquele dia na praia, de recolocar aquelas cruzes, não tinha nenhum sentimento de ódio nem de raiva.”

vídeoTV Senado — arquivo do Senado Federal18 de outubro de 2021a partir de 13:5510min

Márcio Antônio do Nascimento Silva fala à comissão, com o nome na placa à sua frente. Em outro momento da mesma sessão, a emissora exibe a foto de Hugo com a legenda “Hugo, 25 anos”.

trecho montado a partir do arquivo público · página de origem

Trecho da fala de Márcio Antônio do Nascimento Silva à CPI da Pandemia, transcrito das notas taquigráficas da sessão.

O meu filho, sabe? O nome dele é Hugo Dutra do Nascimento Silva, um filho muito amado, muito companheiro, um jovem de 25 anos que trabalhava em três empregos. Ele era professor de dança de salão, ele era DJ também nessa área e trabalhava na área de informática. Então, muitas vezes, eu tive que esperá-lo acabar um baile e pegá-lo às 2 horas da manhã, esperar lá e deixar ele no trabalho dele às 4 horas. Até uma menina do trabalho dele um dia me falou: “Cara, quantas vezes eu cheguei e encontrei o Hugo dormindo lá, porque às 5 horas ele já tinha que estar e às vezes ele estava trabalhando até as 2 horas?” Então, o que eu quero falar é mais de amor, humanidade, sabe? Indignação, mas principalmente de amor, porque aquele meu ato, aquele dia na praia, de recolocar aquelas cruzes - estava sozinho - tinha muita indignação, mas eu quero deixar bem claro pra todos que não tinha nenhum sentimento de ódio nem de raiva. Pelo contrário: é um sentimento de muito amor, entendeu? Eu vou falar do ato primeiro. Naquele dia eu não participava do ato, eu estava saindo da covid, estava muito fraco, e o médico falou: “Márcio, vai na praia tomar um pouco de vitamina D pra você se recuperar um pouco”. E eu até não tinha tanta força pra ir, minha esposa tinha que me levar, me ajudar. Aí resolvi ir com ela. Fomos. Quando eu vi o ato da ONG Rio de Paz - eu vi de longe -, eu vi umas cruzes e eu me lembrei: “Caramba, já completamos 100 mil vítimas!” Quando eu vi aquele ato, eu fiquei um pouco consternado, assim: “Caramba…” Lembrei a coisa do meu filho. E, quando eu cheguei perto, eu senti uma felicidade, falei: “Caramba, alguém está fazendo uma homenagem às vítimas!” Fiquei superfeliz, mas, quando eu cheguei perto, eu vi um grupo… E quero enfatizar bastante: tinha mais ou menos umas 60 pessoas, mas tinha um grupo de cinco ou seis pessoas hostilizando muito, hostilizando e falando um montão de besteira. E era uma coisa até irracional, porque ali era uma homenagem às vítimas, parecia que aquelas pessoas eram inimigas do que estavam acontecendo. E eu já tinha - eu quero relatar -, eu já tinha tido antes um problema muito grave - pra mim é grave, porque, toda vez que eu tenho esse sentimento de raiva ou ódio, pra mim é muito grave.

O ato a que ele se refere é o da ONG Rio de Paz, na praia de Copacabana, em agosto de 2020, quando o país chegou a cem mil mortes. Márcio estava se recuperando da covid-19 e fora à praia por orientação médica. A imagem dele recolocando as cruzes derrubadas correu o Brasil e o mundo.

fontes

  1. CPI da Pandemia18 de outubro de 2021

    Notas taquigráficas da 65ª reunião da CPI da Pandemia — audiência pública para oitiva de vítimas diretas e indiretas da covid-19 · Senado Federal