Giovanna Gomes Mendes da Silva
audiência pública da CPI da Pandemia com vítimas diretas e indiretas da covid-19, 18 de outubro de 2021
Perdeu a mãe e o pai com catorze dias de diferença. A mãe, transplantada renal, morreu depois de oito dias intubada; o pai se recuperou da covid-19 e morreu do câncer que se generalizou durante a internação.
“A gente não teve nem tempo de sofrer pela minha mãe. Eu não podia ficar chorando na frente do meu pai; eu tinha que passar que estava tudo bem.”
Trecho da fala de Giovanna Gomes Mendes da Silva à CPI da Pandemia, transcrito das notas taquigráficas da sessão.
A minha mãe, por ser transplantada, tinha chance de ter o agravamento da doença, assim como teve. Ela ficou dois dias em oxigênio e depois foi intubada. Inclusive, quando ela estava com oxigênio, eu não sei se o nome é esse, máscara concentradora, mas é uma máscara que eles usam acho que na enfermaria, que se chama, que ela tem um saco aqui assim, não é como uma outra, só o cateter, no caso. E essa máscara… Ela passou uma noite com essa máscara furada, esse saco que ficava embaixo. Então, acho que isso, com certeza, deve ter agravado o quadro de saúde dela, tanto que esse detalhe quem percebeu fui eu que estava lá, estava acompanhando o meu pai, e ela estava no mesmo hospital que o meu pai. Então, de vez em quando, eu ia olhá-la, de vez em quando, eu ia olhá-lo, e notei que ela estava com essa máscara furada. Trocaram, mas de qualquer forma o quadro dela acabou se agravando. Então, ela passou oito dias intubada, até que veio a óbito. O meu pai, no período em que ela estava internada, também esteve internado e se recuperou da covid. Ele tinha uma doença preexistente de que ia começar o tratamento, que era o câncer. Então, quando ele saiu do tratamento da covid, de que ele tinha se recuperado, ele um dia depois foi internado de novo, porque o câncer dele tinha se generalizado por todo o corpo. Não tinha mais como continuar o tratamento, nem começar; o que antes dava não dava mais, bem rapidamente. Então, dois dias depois do falecimento da minha mãe, meu pai foi internado. E a gente não teve nem tempo de sofrer pela minha mãe, não é? Porque eu… Por exemplo, minha mãe tinha falecido há dois dias, e já tive que estar com meu pai no hospital, não tive nem oportunidade de chorar nem nada do tipo, porque eu não podia ficar chorando na frente do meu pai, não é? Eu tinha que passar que estava tudo bem, tinha que mostrar força, não é? Então, ele passou acho que foram 13 dias internado e veio a óbito também. Foi uma diferença de 14 dias do meu pai e da minha mãe.
Na mesma sessão, ela perguntou aos senadores se a ajuda de custo em discussão para filhos de vítimas alcançaria casos como o do seu pai, que morreu de uma sequela — o câncer que se generalizou depois da covid-19 — e não da doença em si. O Brasil tinha, nessa altura, mais de 120 mil crianças e adolescentes órfãos pela pandemia.
fontes
- CPI da Pandemia18 de outubro de 2021
Notas taquigráficas da 65ª reunião da CPI da Pandemia — audiência pública para oitiva de vítimas diretas e indiretas da covid-19 · Senado Federal