Antônio Carlos Alves de Sá Costa
Rio de Janeiro · RJ — audiência pública da CPI da Pandemia com vítimas diretas e indiretas da covid-19, 18 de outubro de 2021
Fundador da ONG Rio de Paz, responsável pelos atos com cruzes na praia de Copacabana em homenagem às vítimas. Falou à CPI em nome da sociedade civil que foi às ruas durante a pandemia.
“Houve avôs e avós, pais e mães, tios e tias, filhos e filhas, irmãos e irmãs que presenciaram os que mais amavam perecerem por desinformação e falta de vacina, oxigênio e atendimento médico.”
Trecho da fala de Antônio Carlos Alves de Sá Costa à CPI da Pandemia, transcrito das notas taquigráficas da sessão.
Os dois últimos anos foram os mais difíceis da história da nossa geração, sem a mínima dúvida. Testemunhamos fatos humilhantes para a nossa democracia e devastadores para o coração de quem tem apreço pela nossa gente. Vimos o espectro da fome voltar a rondar os lares dos despossuídos. Vimos o nosso povo disputar resto de carne de açougue para ter do que se alimentar. Vimos milhões de desempregados sem perspectiva de voltar ao mercado de trabalho, passando, assim, a depender da misericórdia incerta da sociedade e do Poder Público para sobreviver. Vimos a classe trabalhadora impedir a nossa economia de entrar em colapso completo, mas não sem entrar em ônibus, vans e trens superlotados, expondo-se, assim, ao risco de contágio e morte. Vimos o colapso da saúde mental de milhões de famílias, fruto das dívidas acumuladas, da perda do padrão financeiro, da instabilidade política, do terror face ao risco de contaminação e falecimento de ente querido. Vimos milhares de lares enterrarem os seus mortos. Houve avôs e avós, pais e mães, tios e tias, filhos e filhas, irmãos e irmãs que presenciaram os que mais amavam perecerem por desinformação e falta de vacina, oxigênio e atendimento médico. Perdoe-me fazer um desabafo ridículo para nossa democracia - ridículo! Incompetência, descaso e irresponsabilidade fizeram com que o Brasil se tornasse o segundo país do mundo em números absolutos de mortos pela pandemia e o sétimo em números absolutos de mortos. Há um lado luminoso nessa catástrofe. Nossa imprensa e movimentos sociais não deram trégua à classe governante, cobrando vacina, pão, ar e respeito. Milhares de brasileiros subiram morro, expondo-se ao risco de contaminação, para levar cesta básica ao necessitado. Nossos caixas de supermercado e atendentes de farmácia impediram a interrupção do suprimento de comida e medicamento. O que falar dos nossos médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde? Como não pensarmos que adoeceram e morreram por anelar e cumprir sua vocação com coragem e excelência.
fontes
- CPI da Pandemia18 de outubro de 2021
Notas taquigráficas da 65ª reunião da CPI da Pandemia — audiência pública para oitiva de vítimas diretas e indiretas da covid-19 · Senado Federal