O TrateCov: o aplicativo da cloroquina, lançado em Manaus
Na mesma semana em que Manaus ficou sem oxigênio, o Ministério da Saúde lançou na cidade o TrateCov, um aplicativo que, a partir de sintomas informados, prescrevia cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina — inclusive para crianças. A ferramenta foi montada em cinco dias e saiu do ar dez dias depois, a pedido do Conselho Federal de Medicina.
“— Tudo aquilo que poderiam ter feito com o povo do Amazonas e de Manaus para testar, para usar de cobaia, para ter experiência foi feito lá. — Presidente, o senhor me desculpe, mas não é cobaia. É uma tentativa de melhorar o atendimento ao público.”
O trecho em que o senador Eduardo Braga cobra explicação sobre o TrateCov e o ex-ministro conta como o aplicativo foi feito — a sugestão trazida de Manaus em 6 de janeiro, os cinco dias de montagem sobre “uma base que já é comum da internet”. O recorte foi localizado pelas marcações de hora das notas taquigráficas.
trecho montado a partir do arquivo público · página de origem
A sequência está na ata da CPI, pela boca do próprio ministro: a ideia chegou em 6 de janeiro de 2021, trazida da capital amazonense pela secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde; entre os dias 6 e 11, a equipe do Ministério montou a ferramenta sobre “uma base que já é comum da internet”; o lançamento foi em Manaus, com participação do ministro, e teve cobertura e campanha na TV pública.
Em 21 de janeiro o aplicativo saiu do ar, depois de o Conselho Federal de Medicina pedir sua retirada imediata, alegando que induzia à automedicação e não preservava o sigilo dos dados. O Ministério passou a dizer que era um “simulador”, um projeto-piloto que teria sido invadido e ativado indevidamente — explicação que não constava do lançamento.
A justaposição é o que este registro guarda. Entre 11 e 21 de janeiro de 2021, enquanto hospitais de Manaus ficavam sem oxigênio e pacientes morriam asfixiados, o Ministério da Saúde lançava naquela cidade um aplicativo para prescrever um tratamento sem eficácia comprovada. A escolha de Manaus foi questionada na CPI como uso da população local para teste; o senador Flávio Bolsonaro contestou a palavra “cobaia” e defendeu a iniciativa como “uma tentativa de melhorar o atendimento ao público”, argumentando que a cidade fora “a primeira que sofreu” com a dificuldade de atendimento.
Na mesma semana, em 14 de janeiro, o ministro participou de transmissão ao vivo com o presidente da República em que, segundo o que lhe foi apresentado na CPI, afirmou que a ciência ainda não havia comprovado a eficácia do isolamento e do uso de máscaras.
fontes
- CPI da Pandemia20 de maio de 2021
Notas taquigráficas da CPI da Pandemia — segundo dia da oitiva de Eduardo Pazuello, com a explicação do TrateCov · Senado Federal
“No dia 6 de janeiro, a Secretária Mayra, quando voltou de Manaus, trouxe a sugestão de nós fazermos uma plataforma, uma calculadora que facilitasse o diagnóstico. […] Isso foi no dia 6. Entre o dia 6 e o dia 11, nesses quatro, cinco dias, inclusive aí o final de semana, a equipe do ministério pegou uma base que já é comum da internet e jogou os parâmetros.”
- imprensa21 de janeiro de 2021
Aplicativo que recomendava remédios sem comprovação contra covid-19 sai do ar · CNN Brasil
- imprensa21 de janeiro de 2021
App do Ministério da Saúde que recomendava cloroquina até para bebês é retirado do ar · Confederação Nacional dos Trabalhadores em Seguridade Social