O núcleo político da desinformação
A CPI da Pandemia concluiu que a desinformação sobre a covid-19 não foi espontânea, mas produzida por uma organização de cinco núcleos articulados. Um deles, o núcleo político, era formado por parlamentares — e o relatório final lista, com data, o que cada um publicou contra as máscaras, o distanciamento, as vacinas e a favor do chamado tratamento precoce.
“Em seguida, está o núcleo que oferece suporte político às decisões da organização. Ele é formado essencialmente por parlamentares, políticos, autoridades públicas e religiosas. […] Eles incentivaram as pessoas ao descumprimento das normas sanitárias impostas para conter a pandemia e adotaram condutas de incitação ao crime.”
A comissão descreveu uma organização de cinco núcleos: o de comando — o presidente da República e os filhos com mandato —, o formulador, dentro do Palácio do Planalto, o político, o de produção e disseminação e o de financiamento. O que segue é o conteúdo do item 9.5.3, que detalha o núcleo político. A lista é do relatório, com as datas do relatório. Os partidos são os da época: a bancada do PSL aqui citada migrou em peso para o PL em 2022.
Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara
Porta-voz da tese de imunidade de rebanho por contaminação.
- 18 de maio de 2020 — em entrevista, diz que o presidente pretendia alcançar logo o pico de contágio, com 60% da população infectada, até a aquisição de anticorpos.
- 28 de junho de 2020 — defende a imunidade de rebanho e o isolamento vertical: “entendo que nós devíamos buscar mais rapidamente a imunidade de rebanho, ou seja, que a grande parte da população, mais de 60%, já tivesse os anticorpos”.
- 28 de outubro de 2020 — organiza na Câmara um evento para debater a imunidade de rebanho por contaminação, com defesa da volta imediata às aulas presenciais.
- 12 de dezembro de 2020 — sobre contaminar crianças e adolescentes: “o que seria a lógica? Contaminar o máximo de pessoas de baixo risco”.
- 17 de março de 2021 — afirma que a situação do país é “confortável” em relação à pandemia. Era o mês que antecedeu o mais letal da pandemia no Brasil.
- 30 de maio e 6 de maio de 2021 — afirma que não há nada que prove que a máscara diminui a contaminação, e que o uso é “contestável”.
- 21 de junho de 2021 — defende a imunidade de rebanho e afirma que a tese não configura assassinato em massa.
Osmar Terra (MDB-RS)
O relatório registra que um levantamento do site Aos Fatos o apontou como o congressista que mais publicou informação falsa sobre covid-19 no Twitter.
- 18 de março de 2020 — prevê que a covid-19 causará menos danos que a H1N1, em publicação e em entrevista à TV Câmara.
- 17 de maio de 2020 — comemora uma suposta imunidade de rebanho em Manaus. A cidade teria, oito meses depois, o colapso do oxigênio.
- 25 de maio e 13 de julho de 2020 — afirma que não haverá segunda onda no Brasil.
- 4 e 6 de junho e 15 de julho de 2020 — publica que “nunca morreram mais de mil pessoas num único dia”. O relatório observa que a média diária já passava de mil desde maio de 2020, pelos dados do próprio Ministério da Saúde.
- 7 de outubro de 2020 — divulga a Declaração de Great Barrington, documento pela imunidade de rebanho que, como se noticiou à época, tinha entre os signatários nomes falsos.
Carlos Jordy (PSL-RJ)
- 8 e 12 de agosto de 2020 — defende a cloroquina como “cura”.
- 21 e 24 de outubro de 2020 — ataca a obrigatoriedade da “vacina chinesa”, termo que repetiu como “vachina”.
- 9 de dezembro de 2020 — sobre a vacinação: “eu tomo se eu quiser”.
- 20 de dezembro de 2020 — compartilha vídeo sobre um único caso de reação alérgica à vacina da Pfizer nos Estados Unidos.
Carla Zambelli (PSL-SP)
- 13 de março de 2020 — diz não poder recomendar a apoiadores que fiquem em casa.
- 13 de abril de 2020 — afirma que parte da população já estaria imunizada.
- 30 de abril de 2020 — propaga o boato de que caixões de mortos pela covid-19 estariam sendo enterrados vazios.
- 10 de junho de 2020 — publica que o projeto de obrigatoriedade de máscaras permitiria invasão domiciliar.
- 26 de agosto de 2020 — afirma estar curada da covid-19 com hidroxicloroquina, e depois apaga a publicação. Em 28 de agosto, jornalistas do G1 apuram que ela não tivera covid-19.
Bia Kicis (PSL-DF)
- 17 de agosto e 18 de setembro de 2020 — campanha contra o uso de máscaras e projeto de lei para retirar a obrigatoriedade.
- 2 de setembro de 2020 — projeto de lei para desobrigar a “vacina experimental”.
- 2 de dezembro de 2020 — compartilha a afirmação falsa de que a vacina poderia afetar o DNA humano.
- 27 de dezembro de 2020 — comemora a retirada do decreto de lockdown em Manaus. Duas semanas depois, a cidade ficaria sem oxigênio.
- 26 de janeiro de 2021 — compartilha supostos estudos segundo os quais máscaras não teriam efeito e prejudicariam a saúde.
O que esta entrada é e o que não é. Ela reproduz o levantamento de uma comissão parlamentar de inquérito, com as datas e a descrição que constam do relatório aprovado. Não é condenação: nenhum dos parlamentares aqui listados foi julgado por essas publicações, e o próprio relatório registra que parte deles não foi indiciada. O que está documentado é o conteúdo publicado, a data e o fato de que contrariava o consenso científico e os dados oficiais do momento em que foi publicado.
fontes
- CPI da Pandemia26 de outubro de 2021
Relatório final da CPI da Pandemia — capítulo 9.5.3, núcleo político: agentes da desinformação · Senado Federal
- documento oficial
Página oficial da CPI da Pandemia — relatórios, atas e documentos · Senado Federal