A campanha do presidente contra as medidas sanitárias
Ao longo de quase um ano, o presidente da República fez uma sequência contínua de declarações públicas minimizando a doença, atacando o distanciamento social e desacreditando o uso de máscaras. A CPI da Pandemia compilou essas falas com data e fonte e concluiu que o chefe do Executivo foi “o maior canal de disseminação de desinformações” sobre as medidas não farmacológicas.
“O governo federal não seguiu essa estratégia e teve no Presidente da República o maior canal de disseminação de desinformações e de conflitos a respeito das medidas não farmacológicas.”
Esta entrada reúne o que a CPI da Pandemia levantou e datou. Cada fala abaixo está no relatório final, com a fonte em nota de rodapé. As duas mais conhecidas — o pronunciamento da “gripezinha” e o “e daí?” — têm entrada própria nesta linha do tempo.
2020
- 7 de março — convoca a população a participar de manifestações contra o Supremo Tribunal Federal, atos que sabidamente causariam aglomeração.
- 10 de março — chama a pandemia de “uma pequena crise” e diz que é “muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é tudo isso que a grande mídia propala”.
- 11 de março — afirma ter ouvido que “outras gripes mataram mais do que essa”.
- 15 de março — “muitos pegarão isso independente dos cuidados que tomem. Isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde. […] não podemos entrar numa neurose, como se fosse o fim do mundo”.
- 17 de março — “depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar”.
- 21 de março — determina a ampliação da produção de cloroquina pelo Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército.
- 26 de março — “O brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali. Ele vai, mergulha e não acontece nada com ele”.
- 31 de março — distorce fala de diretor da Organização Mundial da Saúde, omitindo o trecho sobre assistência a quem ficou sem renda.
- 14 de abril — “parece que está começando a ir embora essa questão do vírus, mas está chegando e batendo forte a questão do desemprego”.
- 9 de maio — em videoconferência com empresários, contra medidas de restrição: “se for isso mesmo, é guerra. Se quiserem, eu vou a São Paulo, vocês têm que lutar contra o Governador”.
- 19 de maio — “quem é de direita toma cloroquina; quem é de esquerda toma tubaína”.
- 7 de junho — “esse vírus é quase como uma chuva, vai atingir você”.
- 19 de agosto — “Tem algum médico aí? A eficácia dessa máscara é quase nula”.
- 18 de setembro — “Vocês não pararam durante a pandemia. Vocês não entraram na conversinha mole de ‘fica em casa’. Isso é para os fracos”.
- 31 de dezembro, em transmissão ao vivo — “Falam tanto em máscara. […] Isso é uma ficção. […] A máscara funciona para o médico, que está operando uma máscara específica. A nossa aqui, praticamente zero”.
2021
- 25 de fevereiro — “começam a aparecer os efeitos colaterais das máscaras. Eu tenho minha opinião sobre as máscaras, cada um tem a sua, mas a gente aguarda um estudo sobre isso feito por pessoas competentes”.
- 7 de abril — a Advocacia-Geral da União, a mando do chefe do Executivo, defende no STF a liberação de cultos e missas presenciais.
- 21 de setembro — na Assembleia Geral das Nações Unidas, repete a defesa do tratamento precoce.
A CPI atendeu também a um pedido de documentação: emissoras de televisão — Globo, CNN, Record, Band, SBT, TV Cultura e TV Brasil — entregaram à comissão vídeos de aglomerações com a participação do presidente da República. Esse acervo audiovisual existe, está arquivado no Senado e é o material que falta anexar a esta entrada.
O relatório registra ainda o efeito institucional: para não entrar em conflito com as declarações do presidente, o Ministério da Saúde, “notadamente na gestão Pazuello”, deixou de lançar campanhas educativas de grande alcance. A comunicação diária com a população, que existia na gestão Mandetta, acabou.
fontes
- CPI da Pandemia26 de outubro de 2021
Relatório final da CPI da Pandemia — capítulo sobre oposição às medidas não farmacológicas, com a compilação datada das declarações · Senado Federal
- imprensa26 de março de 2020